Bom Dia! Domingo, 24 de Junho de 2018

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Sociedade

Um concurso literário cheio de segredos

PARTE 1

A pacata cidade do Flutuante encontrava-se às vésperas de completar seu centenário. Tudo fora minuciosamente preparado para o esse dia. Alguns valorizavam o dia que estava por vir, mas outros não se importavam com o passar de mais uma primavera que a cidade completaria. A verdade é que a população mais beócia sequer lembrava da data, não fossem os murmúrios que ecoavam nas esquinas da cidade.

A centenária Flutuante ganhara este nome devido ao primeiro morador que residia às margens do rio Uru e construíra uma casa de madeira que se assemelhava a um flutuante; reunidos em assembléias os primeiros moradores do então incipiente lugarejo escolheram por unanimidade homenagear a primeira casa e o primeiro morador.

Com o decurso dos anos a cidade crescera e se desenvolvera fundamentada nas artes e na literatura. E no dia seguinte a partir da meia noite Flutuante comemoraria suas bodas de jequitibá.

A cidade adormecera ao som do silêncio noturno que fora rompido pelo som dos animais, a maioria domésticos que vagavam pelas ruas e vielas, muitas delas obscuras, reflexo das atitudes de vândalos que sempre estiveram empenhados na depredação do patrimônio público. A verdade é que a jovem cidade possuía as mesmas mazelas de muitas cidades mais velhas.

 A prefeitura do município fez toda a programação da festa um ano antes, para que no ano seguinte, isto é, em 1994,mais precisamente no dia 26 de Maio nada saísse errado, e se algum imprevisto surgisse, todos estariam bem preparados para contornar a situação.

Quando o dia raiou a banda de música anunciou o inicio das festas. Discurso não houvera, mas celebrou-se uma missa em frente ao velho flutuante que virara ponto turístico da cidade. Sim, a casa próximo ao rio foi transformada em um museu com biblioteca contendo um vasto acervo literário e histórico.

Pe. Inácio Camilo alongara-se em sua homilia destacando o contexto histórico da cidade e apelando ao povo junto ao poder público pela conservação do lugar e de seus costumes, principalmente os religiosos. Com o fim da celebração, todos foram festejar no clube recreativo da cidade, fechando as portas do museu que só seria reaberto ao anoitecer para a realização do tradicional concurso de poesia que acontecia há seis décadas.

Na casa do estudante Herbert Campelo Neto era só tranqüilidade. Fundamentado nos anos de estudos na biblioteca da família e nas grandes vitórias de seu pai Herbert Filho, Neto mantinha-se calmo e confiante. Sendo o ano do centenário aquele seria o prêmio mais importante que a família Campelo poderia conquistar; por isso Neto descansava e aguardava o momento mais esperado do dia.

Diferentemente de Herbert Neto, Luís Guilherme era só nervosismo; andava para lá e para cá massageando as mãos e os dedos. No descontrole emocional dialogou bastante com um passarinho de seu pai que cortava o silêncio da casa todas as manhãs. Na tentativa frustrada de controlar-se um pouco, sentou-se na porta de sua casa para contemplar os pequenos alfinetes que seus pais plantaram e que com o tempo trasformou-se em um lindo e minúsculo jardim.

Ao contrário de Neto, Luís Guilherme jamais ganhara um prêmio, afinal de contas aquela era a primeira vez que ele se inscrevia em um concurso, e logo com suas belas palavras literárias fora levado à etapa final do concurso mais tradicional daquela cidade. Alguns de seus professores acreditavam que com o advento de seus versos nascia uma nova estrela nos céus literários da centenária Flutuante.

Ainda sentado à porta de sua casa, eis que aparece em sua frente um senhor com uma aparência familiar, mas que Luís não conhecia.Tinha as marcas da idade no rosto e nas mãos.Aquele homem era o ex-professor Heitor Alves que residia na capital do estado,mas que havia nascido em flutuante há 70 anos atrás.

Heitor fora embora da cidade depois de ser preso por desacatar um delegado. Na época houve uma briga naquele mesmo concurso, ele ficou preso por uma noite, no dia seguinte foi liberado e resolveu partir e continuar seus estudos longe dali. Tornou-se um renomado jornalista e professor de literatura, devotando toda a sua vida ao universo das letras. Com o momento singular Heitor regressou para rever o centenário de sua terra e procurou saber quem era os candidatos do prêmio daquele ano; por sorte achou alguém muito especial como um dos finalistas.

O jornalista conversava com Guilherme e pediu a este:

— Venha comigo e eu contar-te-ei toda a história deste evento e de seu adversário.

Ignorando o fato de nunca ter visto o professor, Luís Guilherme entrou em casa rapidamente, pegou caneta e papel, e sem dizer nada a nenhum familiar, foi junto com o jornalista a uma antiga chácara que ficava distante da cidade de Flutuante.

No clube, onde a festa acontecia, a banda da cidade tocava de forma eclética. Cecília Cunha amiga dileta de Guilherme participava junto a sua família, e vendo Herbert Neto chegar acompanhado de seu pai no clube, resolveu telefonar para o também finalista do concurso, porém, todas as suas tentativas foram vãs, Guilherme havia desligado seu celular. Cecília decidiu ir à casa do amigo que ficava bem próximo do local onde acontecia a festa.

Para a surpresa de Cecília, Luís sequer se encontrava em casa. Perguntou então ao pai do jovem onde ele estava e ele respondeu que Guilherme estava sentado na porta de casa, e quando foram chamá-lo ele não estava mais.

— Talvez — disse o pai — Ele tenha saído para tentar concentrar-se melhor ou mesmo esvaecer o nervosismo que o acompanha desde ontem.

Cecília Cunha regressou ao clube, onde comida e bebida não cessavam.

Herbert, pai de Neto arrotava elogios ao filho e a sua família. Dizia que “poeta não se faz, se nasce”. Na verdade aquilo era uma tentativa de menosprezar a produção literária de Guilherme. A jovem observava tudo aquilo e falava com os seus botões:

— Prepotente! Todo mundo sabe o que tem por detrás deste concurso. Ou será que ele é tão ridículo de achar que nosso povo é ignorante?

A verdade era que a influência social era observada na hora das notas. Mesmo quando não havia familiares de Herbert no concurso, havia amigos da família ou parentes dos amigos dele garantindo a premiação graças ao seu apoio. Certa vez houve um empate, chamaram um professor da capital para decidir, professor este que havia sido convidado por Herbert para acompanhar a disputa, o resultado todo mundo sabe. Enfim, todos os anos de realização deste concurso tudo corria para o bem dele.

Samira Diorama da Fonseca é acadêmica do curso de Letras da UEMA em Itapecuru – Mirim.


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Comentários (1)

  • O texto "Um concurso literário cheio de segredos " é dedicado a professora Silvia Helena Cunha.

    Samira Diorama da Fonseca