Boa Tarde! Ter�a-feira, 11 de Dezembro de 2018

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Sociedade

Treze de março: cidade sem amanhã

Para Caio Lira

O caso é miraculoso e um tanto inverossímil, mas como ambas, a escrita e memória, são imprecisas, você caro leitor há de perdoar-me a inaptidão da primeira e a fraqueza da segunda.

            A tarde era escura, uma massa cinzenta cuspia pingos d’água sobre a janela do ônibus, o almoço carregado no cuminho causava-me azia, fiquei olhando os pingos d’água, um desses amores fáceis que trazemos da infância: naquela época adorava deitar-me sobre a laje do terraço recebendo o sereno sobre os olhos. Fiquei nesse jogo monótono de prazer do outros tempos quando cai no sono. Um senhor de rosto fino me despertou: “moço, o ônibus escangalhou, vamos ter de passar a noite aqui!”.

            - Onde estamos?

            - Em treze de março.

            - Não senhor, a cidade; em que cidade estamos?

            - Pois é! treze de março é o nome daqui.

            Quem diabos batiza uma cidade de “treze de Março”? pensei.

            - Não dá para chamar um mecânico?

            - Mecânico só na próxima cidade, e estar tudo alagado, não dá nem pra ir e nem voltar, respondeu o motorista. Somente agora reparei nele, era um senhor já idoso, mas duro, parecia expelir saúde.

            - Droga! pensei. Vamos ter que dormir no ônibus?

            - Não, tem uma pousada ali na praça. Vamos dormir lá.

            Pegamos as bagagens e saímos: eu, o senhor motorista, o cobrador de rosto fino. Chegamos a uma casa simples: uma sala com um único sofá e duas cadeiras de balanço com almofadas finas, um rádio e um bico de luz amarela. Logo atrás uma pequena cozinha onde percebi apenas o canto da mesa. Uma senhora nos recebeu, deu um olhar de intimidade ao motorista do qual deduzir que ele estava em casa.

            - Fique a vontade, Maria vai preparar uma comida pra gente. Vou mostrar o quarto. Seguimos o motorista, eu e o cobrador. O quarto era simples, paredes azuis, duas camas de solteiro, uma mesa com um ventilador.

            - O moço fica neste. Robson, tu fica neste defronte. Pode tomar um banho que eu chamo quando a comida estiver pronta.

            -Obrigado! Percebi que ambos já eram bem conhecidos, Robson, o cobrador de rosto fino, se sentia totalmente em casa. O banheiro ficava entre os dois quartos, tomei um banho, a água era fina e era necessário passar o dobro de tempo embaixo do chuveiro para retirar a espuma do corpo. Fui para o quarto, sequei-me e deitei em uma das camas, retirei os cigarro na bolsa, mas me contive, achei que seria inconveniente fumar em uma casa que acabara de chegar.

            A comida era simples, mas muito bem temperada. Comemos os três em um silêncio só quebrado pelo diálogo prático entre o motorista e o cobrador: “Amanhã você vai até Seu Zequinha pra ele vir olhar o motor”; “Acho que não é motor não seu Zé, deve ser carburador”, “Tu acha?”, “A zoada tá parecendo de carburador engasgado”. Estava ali mastigando e deixando o som da chuva sobre a coberta de zinco se sobrepor àquele diálogo; lembrei-me de um processo, no qual trabalhei, sobre um homem que havia ganhado um prêmio na loteria e que ao saber da notícia, ficou tão feliz que correu para dar um mergulho na praia para agradecer a Iemanjá e se afogou. A família reclamava que ele mergulhou com o bilhete no bolso e que os bombeiros ao retirar o corpo o surrupiara. O corpo de bombeiros afirmava que não havia bilhete algum no bolso da vítima, e assim o pepino era entregue na mão do juiz. Este uma vez brincou no fórum dizendo que teríamos que acabar tendo que intimar a entidade para saber que rumo levou o tal bilhete.

            - Amanhã Robson irá buscar Seu Zequinha na cidade aqui próxima, e depois que estiver tudo pronto nós continuamos a viagem. Despertou-me o motorista de meus pensamentos.

            - Tudo bem! Dêem-me licença estou satisfeito, boa noite. Subi ao quarto, deitei-me e tomei um pequeno susto com o corre-corre dos ratos sobre o forro de PVC. Fiquei olhando para as paredes manchadas, uma grande mancha perto do forro se assemelhava a um elefante de seis patas, outra, a um rosto de Papai Noel, percebi um paralelepípedo...

            Despertei com os gritos do galo. O sol já estava alto e a luz entrava pelas frestas da janela. Asseei-me, penteei-me e vestir a mesma causa do dia anterior, mas troquei a camisa. Desci à cozinha.

            -Bom dia! Num sei se o senhor gosta de cuscuz, mas se num gostá tem bolo de tapioca, a casa é sua, fica à vontade. 

            - Obrigado! Ela era tão velha quanto o motorista e dava para perceber que estavam juntos há muitos anos.

            - E Seu Zé e o Robson, onde estão?

            - O Rob foi até Santa Maria buscar Seu Zequinha pra concertar o ônibis, Zé deve de tá lá no ônibus.

            - Obrigado pelo café! Vou até lá falar com ele.

            Sem a escuridão da noite passada pude ver a cidade pela primeira vez, bem verdade não se tratava realmente de cidade, era apenas uma pequena vila. Algumas casas em torno de uma pequena praça em forma de um pentagrama com uma estátua ao meio. Segui à direita ladeando um velho muro coberto de plantas, passei por um comércio escuro, onde se amontoava vários sacos de náilon e um grupo de senhores, todos já idosos, numa espécie de papaguear insonoro ao que passa à entrada; atravessei a rua estreita, subi a calçada alta da praça e sentei-me num banco diante de uma encorpada amendoeira. À esquerda algumas palmeiras imperiais eram dispostas formando o desenho de um pentagrama, achei curiosa essa repetição de um mesmo símbolo. A estátua tinha uns dois metros de altura sobre uma base de mais ou menos um metro, na placa novamente um pentagrama e a inscrição São Bernardo. Era a primeira vez que via uma praça em homenagem a um santo, pelo menos que me lembre. O vento era doce e agradável, do outro lado da praça uma banca de verduras, de uma das extremidades uma senhora bem branca, da outra, duas senhoras de pele mais escura, todas de cabelos completamente brancos. Sobre a banca alface, cebola e tomates de um vermelho sanguíneo, e outras coisas a mais. Elas praticamente não falavam, o mesmo ocorria à direita com outras duas senhoras que sentavam em cadeiras de macarrão diante de uma humilde casa; na verdade todas as construções tinham aquela aparência de esquecimento, como se o tempo ali esquecesse um grupo de velhos. E comecei a desconfiar que aquela fosse uma vila de idosos, não havia um sorriso de criança, nem aqueles gritos eufóricos de quem joga peteca no chão úmido. Tudo ali transpirava tempos idos e aquele silêncio de que a tudo os olhos já se cansaram.

            Levantei e dirigi-me ao ônibus, caminhei uns cem metros e virei a esquina, oitocentos metros à frente estava o ônibus. Vi a cabeleira branca de Seu Zé, estava olhando o estado dos pneus, um andar miúdo, mas rápido.

            - Bom dia Seu Zé, e o estado do ônibus?

            - Bom dia seu moço; já olhei o motor, passei a chave, mas nada, sem ruído, o bicho parece que apagou de vez. O Robson foi até a cidade aqui perto buscar o mecânico.

            - Ok! Aqui é bem tranqüilo, o senhor já mora aqui muito tempo?

            - Eu nasci aqui, só saio pra levar o ônibus ao seu destino.

            - É curioso Seu Zé, estive ali na praça e não vi crianças, parece que aqui a população é formada apenas de idosos.

            - As crianças crescem e vão pra cidade, aqui somos poucos, apenas treze famílias.

            -Ah! Quanto tempo até a chegada do mecânico?

            - Se a estrada não estiver muito alagada, logo, logo ele chega; umas duas horas.

            - Está bem, vou dar uma volta por aí.

            - Quando estiver tudo pronto eu lhe aviso.

            Refiz o mesmo percurso ao reverso, ao chegar à esquina da praça segui em direção à banca de frutas, passei pelas senhoras, que novamente conversavam em som inaudível, segui até o fim da rua que findava em uma vegetação baixa e alagada. Tomei o caminho à esquerda por um caminho de chão úmido e acabei na rua oposta. Tinha agora a certeza de se tratar de uma vila, uma vila fechada sobre si mesma, um pequeno labirinto formado por pentagramas concêntricos, no qual todos os caminhos levavam à estátua. Encostei-me em uma das palmeiras, retirei um cigarro do bolso e fumei, calmamente, resolvido em não pensar em nada.

            Pisei na ponta do cigarro e me dirigir ao comércio, agora o grupo dispunha de cinco membros, uma conversa sempre baixa, que minha presença interrompeu:

            - Bom dia.

            - Bom dia, respondeu o senhor do outro lado do balcão.

            - Um refrigerante, por favor. O senhor abriu uma geladeira antiga, na verdade nunca havia visto uma daquelas.

            - Os senhores poderiam me informar onde tem um orelhão?

            Os senhores se entreolharam, o proprietário respondeu:

            - Desculpe, mas não temos telefone.

            - Está bem. Digam-me: quando passa outro ônibus?

            - Esse que está lá quebrado é único que por aqui passa, na verdade já estávamos pensando que ele não ia trazer o senhor.

            - Desculpe, não entendi. Como assim me trazer?

            - Isso mesmo.

            - Acho que estão me confundindo, eu estou indo para...

            - Ora, o senhor não é o moço que decifra a Lei?

            - Não, sou técnico do judiciário, eu apenas organizo os processos que o juiz julga.

            - Pois é. O juiz nos deixou a Lei e disse que um moço viria para decifrá-la, então O Zé foi encarregado de trazê-lo.

            - Deve haver um engano, minha comarca me enviou para a cidade de Perpétuo.

            - Isso mesmo, Treze de Março é a cidade perpétua. O senhor deve decifrar a Lei, somente quando a Lei for decifrada receberemos a dádiva. Ouça moço, estamos aqui esperando pelo senhor e se o senhor não decifrar a lei, terá que ficar aqui conosco.

            Fiquei meio atônico, parece que vim parar em uma espécie de colônia de loucos, todos aqueles olhos fixos sobre mim, senti uma angústia que pouco a pouco foi transformando-se em medo. Coloquei a garrafa sobre o balcão, puxei uma nota do bolso e depositei ao lado da mesma e quando me virei para porta encontrei os olhos castanhos de Seu Zé. Saí e dirigir-me até o velho motorista. <


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